Educação financeira

Artigo: O educador e o desafio da educação financeira

O ponto de partida, quando falamos em educação financeira, é a relação que existe entre as emoções e a razão. Diante das escolhas que envolvem dinheiro, a consciência não tem prevalência, e o apelo racional para que crianças ou adolescentes desistam de alguma vontade é pouco eficaz.

Argumentos como “você não precisa”, “o valor é alto”, “não temos dinheiro”, “logo você vai querer outra coisa”, geralmente, não funcionam, porque são direcionados à razão, ao aspecto consciente da pessoa. As vontades ou os “desejos” são de outra ordem, estão relacionados aos anseios, fantasias, ilusões, ou seja, ao inconsciente. Se aceitarmos que o psiquismo, em linhas gerais, é composto pelo consciente (objetivo/razão) e inconsciente (subjetivo/emoção), perceberemos que a educação financeira envolve um imbricado campo de atuação. Vale lembrar que a influência da razão é muito menor do que a interferência das emoções, quando não dedicamos tempo suficiente para analisar, efetivamente, as escolhas.

Atualmente, qual é o sintoma que se presentifica quando uma criança ou adolescente – mesmo um adulto – quer algo? É a reflexão, a razão e a ponderação? Ou tem sido a impulsividade? A urgência, a dificuldade em lidar com a frustração e a impulsividade ajudaram a criar a necessidade da satisfação imediata, sob a alegação do merecimento ou da conquista da felicidade. Estes aspectos são alguns dos pilares da sociedade do espetáculo, do hiperconsumo.

Além disso, ainda temos o avanço da ciência, mais adequadamente da neurociência, que, através de pesquisas utilizando o rastreamento cerebral, tem mapeado que o ato de comprar libera dopamina, o neurotransmissor responsável por gerar uma das mais fortes sensações de prazer. Nesse esteio, surgiu o neuromarketing, que é um campo dedicado a descobrir o funcionamento mental, com o intuito de penetrar na mente e estimular a repetição do ato da compra. Significa que o neuromarketing já sabe que existe uma associação direta entre comprar e ter prazer e que, diante das compras, as pessoas experimentam sensação de poder, aumento da autoestima, percepção de valor diante de si e dos outros (status), sensação de felicidade, entre outros.

Por outro lado, o ato de comprar não é por si só prejudicial. Consumir é necessário, importante, inclusivo e oportuniza melhor qualidade de vida. Em dose excessiva, porém, se transforma em consumismo. Consumista é aquele indivíduo dependente do ato de comprar, ou seja, se tornou escravo do consumo e sua principal fonte de satisfação está na compra. Existem crianças e adolescentes consumistas? Sim. E o grande problema é que eles estão vinculando o desenvolvimento da estrutura de personalidade aos objetos que conseguem adquirir. É uma espécie de “terceirização da personalidade”: quando não compram algo ficam inseguros, quando compram elevam a autoestima; assim que ganham algo que almejavam ficam felizes, quando não conseguem sentem raiva e assim por diante. Diante deste cenário, como um educador pode trabalhar em sala de aula?

Na prática

Se a mente é regida pelo consciente e inconsciente, a abordagem do educador deverá contemplar esses aspectos. Mas, como a escola não deve ser transformada em um imenso divã coletivo, os educadores poderão abordar a questão da subjetividade através da reflexão. Oportunizar tempo para pensar é um excelente modo de fomentar o autoconhecimento.

Dicas práticas 1:

• Solicitar que alunos façam redação sobre o significado do dinheiro em suas vidas.

• Sugerir que elejam um objeto que queiram muito e façam uma lista dos motivos objetivos e dos aspectos emocionais envolvidos na vontade. Depois, sugerir que façam um balanço entre as duas colunas e avaliem qual tem o peso maior.

• Sugerir que se projetem no tempo (1 ano) e analisem qual é a diferença entre ter ou não ter aquilo que hoje querem muito.

• Proporcionar que respondam e analisem questões como: “quando compro sinto...”; “quando não compro algo que quero sinto...”; “já invejei colegas e amigos porque eles possuem...”

Paralelo ao trabalho de analisar a subjetividade do dinheiro, é fundamental contemplar o aspecto objetivo. Uma das formas é incentivar a cultura do poupar, justamente, para combater a cultura do desperdício e do endividamento. Poupar está diretamente relacionado com a disciplina, com a capacidade de postergar e da com tolerância à frustração. Existem três razões básicas para que alguém decida poupar: segurança, futuro e comprar algo. Os jovens são mais facilmente atraídos pelo terceiro.

Dicas práticas 2:

• Pesquisar a história do dinheiro.

• Pesquisar a história do consumo no Brasil e no mundo.

• Pesquisar a influência da publicidade no consumo de alimentos e o aumento da obesidade infantil.

• Fazer um inventário do material escolar comprado no início do ano e comparar com material em desuso dos anos anteriores.

• Analisar o impacto ambiental e a geração de lixo.

• Analisar a quantidade de comerciais inseridos na programação que assistem. 

• Analisar as mensagens subliminares contidas nos comerciais.

• Criar um planejamento financeiro, através do estabelecimento de 1 (um) objetivo financeiro. O objetivo deverá ser claro, de curto prazo, mensurável, de acordo com a realidade financeira e maturidade do aluno. O mais importante é motivar para que encontrem formas de poupar e, posteriormente, conquistar o sonho (guardar parte da mesada, fazer pequenos trabalhos domésticos caso seja prática familiar, criar e vender algum produto, vender brinquedos em desuso, etc.)

Educação financeira é um desafio e uma oportunidade de ajudar jovens a se tornarem adultos saudáveis e sustentáveis, porque o grande ganho está no empoderamento e responsabilidade diante das escolhas, inclusive financeiras.

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